Opinião: Ser benfiquista e adepto de futebol.

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Opinião: Ser benfiquista e adepto de futebol.

Este é mais um excelente texto do nosso amigo benfiquista MP. 
Obrigado MP. Tornas o NGB um blogue melhor com os teus textos.


"Ao contrário de muitos, não "nasci" do Benfica. Até aos 13 anos, não gostava sequer de futebol. Jeito para jogá-lo era zero, pachorra para vê-lo era nenhuma. Porém, como morava numa era pré-internet no país de Futebol, Fado e Fátima, não sendo esse o meu género musical e indo a Fátima apenas esporadicamente, ou via futebol ou assumia-me pária social. Não percebia o que era um fora de jogo, o que dava direito a um penalty ou a diferença entre o campeonato e a taça. Ganhar o Benfica, o Sporting, o Porto, a Académica ou o Belenenses era-me indiferente. 

Já o meu pai, era benfiquista. E eu não percebia porquê. Para que se havia de apoiar um clube? Um dia perguntei-lhe a razão do seu afecto. Respondeu-me que para além do clube local, só se podia ser de dois clubes: Benfica ou Sporting. O primeiro era o clube de todos, o segundo das elites. Aquilo era paleio de adepto, para mim, não dizia nada. Mas se fosse verdade, sabia de quem queria ser. Nunca gostei de quem se acha mais que os outros ou crê ter sangue de uma cor diferente dos demais. 

Fiquei atento. Vi a coincidência entre os apelidos dos notáveis do Sporting e de ministros ou pessoas da banca. Vi a altivez com que se diziam um clube diferente. Vi como no Benfica havia de tudo, de indigentes a ricos, mais grandeza e menos mania. Mania de ser o maior clube, mas não se extravasando tanto para 

Ainda assim, futebol era desporto que pouco me dizia. Jogo a jogo (de vários clubes) fui aprendendo um pouco mais. Até que num Benfica-Milan o Isaías mandou um chutão do meio da rua que bateu num poste. O Benfica tinha perdido por 2-0 fora, precisava de recuperar. Um golo, agora em casa, daria esperança. O Isaías tinha um pontapé fantástico e não era de cerimónias. Ao ver a bola bater no poste, dei por mim a desejar que entrasse. A bola continuou pela linha da baliza, em direcção ao outro poste. Um grau para a direita entrava e seria golo, um grau para a esquerda, seria frustração. Continuou recta, em cima da linha, até embater no outro poste. O lance, para mim, parecia em câmara lenta. Percebi-me em comunhão com milhões de Benfiquistas, no estádio, em casa, agarrados a rádios. Era 50-50 hipótese de golo, podia entrar, podia sair. A bola deformou-se contra o poste e foi devolvida para o relvado, para longe da baliza. Não foi golo. Ficou 0-0. O Benfica foi eliminado. Mas ganhou um adepto.

Qualquer generalização é parva. Não acho que o Benfica seja melhor que os outros excepto quando o prova no relvado. Não acho que seja moralmente superior ou incapaz de fazer o que os outros fazem. Mas não tive de passar pela vergonha de ter como presidente Pinto da Costa. Não passei pela vergonha de ver jogadores do meu clube perseguirem árbitros pelo campo impunemente, de distribuirem pancada sem consequência ou de, como agora, ter adeptos do meu clube a invadirem um centro de estágio dos árbitros. Também não tenho de passar pela vergonha de ter o presidente do meu clube a dizer, como ontem sucedeu, "Bardamerda" para quem é adepto de outros clubes. A vergonha de ter como dirigentes de clube pessoas cujo maior prazer é ver perder o clube adversário. A vergonha de ter um clube dirigido por pessoas que são sobrinhos-netos de antigos primeiros ministros ou sobrinhos de antigos presidentes da república e que ainda assim - ou até por isso mesmo - não se sabem comportar.

Passei vergonhas, enquanto benfiquista. Pelo very-light. Por acções das claques ou adeptos. Passo ainda, ao ver negócios estranhos em que os valores não batem certo ou ao ouvir declarações de comentadores propositadamente acéfalos. Mas ao menos no meu clube, cabem todas as pessoas. Não há aquele elitismo de quem sente ter o direito a ganhar por ter nascido num berço de ouro. No meu clube há merda, sim, como há no país. Há do bom e há do mau. Todos os defeitos e qualidades de Portugal, temperados cada vez mais com outras características vindas do estrangeiro. Não é um clube fechado na sua pequenez de valer tudo para ganhar por necessidade de afirmação. É um clube que perde e que ganha, mas cuja identidade se define de dentro para fora e não por contraposição a outra coisa qualquer. 

Hoje sou adepto acérrimo do Benfica. Dói-me quando perdemos. Vibro quando ganhamos. Continuo, porém, a saber que é apenas um jogo. Não há inimigos, há adversários. Sou do clube que ganhou 2 ligas dos campeões e disputou outras mais finais que qualquer coração aguentaria impune perder. Sou do clube que perdeu 7-1 contra o Celta de Vigo. O que não sou, nem nunca serei, é anti-Sporting ou anti-Porto. Não gosto desses clubes, prefiro vê-los perder. 

Mas são adversários, não são inimigos. São de pessoas com quem gosto de conviver. São meus vizinhos, meus amigos, meus chefes, meus subordinados, meus primos, meus desconhecidos. Pessoas a quem nunca diria, por serem adeptos de outro clube, "bardamerda". Pessoas cujas cidades nunca desejaria ver a arder. O futebol é o mais importante, de certa forma, de tudo o que não é essencial. Esquecer as regras mais básicas da convivência por causa do futebol é ter as prioridades trocadas."

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